
Oséias Francisco da Silva – Supervisor da Guarda Civil Municipal, formado em Filosofia e Mestre em Políticas Públicas, Pós-graduado em Gestão de Segurança Pública.
Seguindo os passos do diálogo[1] entre Einstein e Freud, nessa segunda parte vamos avançar na reflexão trazendo as duas últimas questões que encerraram a carta do pai da física moderna endereçada ao pai da psicanálise. Einstein vai sugerir que as escolas, impressa e igrejas são aparelhos de dominação que criam as propagandas e veiculam os interesses das minorias dominantes a fim de convencer e capturar mente e coração da maioria dominada para que se submeta aos seus interesses, defenda-os como se fossem seus também.
Do ponto de vista capitalista, a igreja, a impressa e a escola, são aparelhos de reprodução da lógica do mercado, e até a guerra pode ser objeto de interesse de grupos econômicos, de setores da economia, que apesar da destruição causada encontram justificativas no campo moral ou legal. Mas, na aproximação possível aos conflitos sociais de natureza criminosa, organizado ou não, dos aparelhos citados por Einstein, na realidade brasileira, só a imprensa ajuda o crime na medida em que promove suas organizações, atividades, seus líderes, luxos e patrimônios adquiridos. Cria um cenário de fama e prosperidade, que de certa maneira, é atrativo, principalmente, para os neófitos, crianças e adolescentes que vivem em situação de vulnerabilidades, sem perspectivas, que facilmente se convencem da mensagem expressada na letra da música Vida Louca parte 2 do grupo Racionais M’C que diz: tempo pra pensar, quer parar? Que cê quer? Viver pouco como rei ou muito como zé? Rei ou Zé, não são sinônimo de mocinho e vilão, porque entre os reis têm tantos vilões quanto mocinhos, da mesma forma entre os Zés. A mensagem é clara: o crime, apesar dos riscos reais de morte e prisão, pode ser o atalho para a fama e prosperidade. Prosperidade no sentido de aquisição de bens materiais (casas, veículos e joias) e de consumo.
Albert Einstein no compasso crescente de suas inquietações filosóficas e preocupações humanísticas, lança mais uma questão a Freud: como esses mecanismos conseguem tão bem despertar nos homens um entusiasmo extremado, a ponto de estes sacrificarem suas vidas? Essa questão levantada é central e o próprio autor ensaia uma resposta possível, segundo ele, isso acontece porque os homens têm dentro de si, de forma latente, o desejo de ódio e destruição. Nessa mesma esteira, transportando a questão para o campo de interesse da segurança pública, teremos ela da seguinte forma: como conseguem despertar nos homens um entusiasmo a ponto de sacrificarem suas vidas, seja pela morte em confronto com as polícias ou com outros criminosos seja uma prisão? Einstein esqueceu ou não levou em conta o fator sucesso, ganho, lucro do crime, fama e realização de ideologia.
Pode ser que o desejo de ódio e destruição estejam a serviço de outros desejos. Freud vai, em sua resposta, ressaltar sua teoria dos instintos e vai dizer que um instinto de destruição dos indivíduos coopera com os mercadores da guerra. Ou seja, tanto um como o outro, particular e o comerciante, tem algum tipo de vantagem na guerra, seja a realização do instinto de destruição seja o lucro.
Quando transportamos essa questão para o contexto da violência e criminalidade urbanas, a lógica é semelhante, os soldados do crime, adolescentes e jovens, principalmente no tráfico de drogas, vendem suas mãos de obras nesse mercado sem garantias e com alto risco de serem presos/apreendidos e até morrerem precocemente, mas além do ganho financeiro eles realizam algo dos seus instintos primitivos. As possibilidades factíveis de desvantagem no mundo do crime não desestimulam nas suas escolhas. E há ainda os que entram por questões de idealismo, acreditando que estão lutando contra o sistema. Mas, o poder da violência, a realização do instinto de morte, de destruição, encontra em atividades criminosas o ambiente adequado para sua realização, como também acontece nas guerras.
Einstein finaliza suas inquietações lançado para Freud sua última questão: é possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade? Sigmund Freud responde categoricamente: Em todo caso, como o senhor mesmo observou, não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra. Freud enfrenta a questão sem romantismo, desvenda a realidade nua e crua que devemos encarar para a partir dela buscar construir os caminhos fundamentais para esvaziar ou desviar o potencial destrutivo.
Na próxima parte do comentário vamos continuar desse ponto e expandir suas implicações. Uma vez cônscio de que o ódio e a destrutividade são inerentes aos humanos, como também são o amor e a busca pela paz, o esforço da civilização é encontrar o equilíbrio de administrar, por meio da racionalidade, da comunidade e de instituições e leis, os instintos destrutivos de maneira a minimizar seu potencial visando a preservação da vida.
[1] UNOIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL (UFRGS) Por que a guerra? Disponível em: https://www.ufrgs.br/psicoeduc/arquivos/por-que-a-guerra-einstein-e-freud.pdf. Acessado em 16 de março de 2026.



