Hannah Arendt, a tese sobre a banalidade do mal e o cachorro da praia.

Adriana M Nunes MartorelliAdvogada. Doutora IPQ/USP, Pós-doutorado FEUSP, Professora do Curso de Segurança Pública da Faculdade VP.

Apresentação

A ideia deste estudo é mergulhar, de modo singelo, no pensamento de Hannah Arendt, uma mulher de mente profunda que, vivenciando as agruras da guerra, decifrou o enigma da banalização do mal, desafiou ideologias e nos deixou de legado uma mensagem para nossas vidas, tanto de indivíduos, como de cidadãos, sobre a força do pensar verdadeiro, o ato mais perigoso e necessário de todos.

Passando a juventude em meio à guerra e o exilio, uma das maiores pensadoras política do Século XX, desenvolveu seus estudos a partir da observação de sua vivência, buscando respostas, por meio de análise de um dos mais dolorosos e sombrios dilemas da história da humanidade, originados pelas atrocidades ocorridas no decorrer da segunda guerra mundial, atos praticados por pessoas que se tornaram cumplices inimagináveis de sua consumação:

O mal muitas vezes não se apresenta com rostos monstruosos, mas com a banalidade da rotina.

Ele cresce quando homens e mulheres renunciam ao pensar, quando obedecem sem questionar.

A Liberdade não é apenas o direito de escolher, mas a coragem de julgar, de assumir responsabilidade diante do mundo.

A política em sua essência, deveria ser o espaço onde nos encontramos como iguais, onde construímos juntos uma realidade comum, mas quando o medo domina, quando a indiferença cala, esse espaço se dissolve.

Eu vos digo: pensar é um ato de resistência![1]

Segundo a filosofa, somente ao se pensar criticamente nos tornamos capazes de impedir que o poder se transforme em tirania e que a obediência cega nos arraste ao abismo o mal.

 Dentre as grandes pensadoras políticas de nosso tempo, Hannah Arendt desafiou ideologias, denunciou a banalidade do mal e nos convidou a refletir sobre o verdadeiro significado da liberdade e da responsabilidade individual.

2.Quem foi Hannah Arendt?

No documentário disponibilizado pelo canal @cafedocumentario[2], é apresentada a história da mulher por trás das ideias, das lutas que travou no campo intelectual e pessoal, mesclados de escândalos, debates acadêmicos, judiciais e políticos acalorados.

Hannah Arendt nasceu em 14/10/1906 na cidade de Linden, atualmente parte pertencente a Hannover, Alemanha.

Oriunda de uma família judaica, de tradição secular e perfil progressista, Arendt cresceu em  um berço no qual o pensamento crítico, a cultura e o diálogo intelectual eram muito prezados.

Karl Arendt, pai de Hannah, faleceu quando ela era ainda criança, mas foi lindamente bem criada por sua mãe, de nome Marta, que, além de provedora, foi uma presença marcante na vida da filha, dada sua personalidade firme, independente e engajada na política, características que lhe transmitiu, resultando em senso de autonomia e coragem, marcas que lhe seguiram pela vida desde muito cedo, pois marcou sua educação e modo de pensar, desenvolvendo-se velozmente, com sua mente ágil e inquieta.

Leitora voraz, apaixonada por literatura e filosofia, Hannah sempre demonstrou insaciável curiosidade, tudo questionando a sua volta, ingressando na Universidade de Marburg aos 18 anos, na qual foi aluna de Martin Heidegger, que já era um dos mais influentes e controversos dentre os filósofos do Século XX.

A admiração de Heidegger pela mente excepcional de Hannah e o fascínio que a aluna causava em seu professor, levou a relação acadêmica para outras paragens, vez que o respeito e afeto mútuos os vincularam de maneira irreversível e controversa.

Enquanto a vida acadêmica florescia, a Alemanha mergulhava na escuridão e, com a ascensão do nazismo, os rumos de Hannah mudaram, pois além  de pensadora crítica, ela era também judia, tornando-se alvo da repressão e sendo presa em 1933 por breve período, acusada pela gestapo de propagar antissemitismo do regime, situação que tornou insustentável sua permanência na Alemanha, levando-a para o exílio em Paris.

 A partida de Hannah de sua Terra Natal, causou uma ruptura geral na vida que até então conhecia, gerando nela uma reanalise no papel do pensamento em tempos de barbárie, cenário que lhe ofereceu  novos instrumentos para compreender a fragilidade do mundo e a urgência de pensar,  começando, a partir de então, ainda em Paris, uma nova fase, marcada por coragem posta em  prática, engajamento político direto e trabalho em organizações judaicas voltadas para auxílio refugiados , por meio das quais ajudou em resgates de  jovens judeus , facilitando-lhes a imigração para a Palestina.

Mesmo sem recursos financeiros e nenhuma segurança pessoal, Arendt nunca deixou de agir quando se deparava com uma situação na qual a dignidade da pessoa humana estivesse em risco.

Foi em Paris que conheceu Heinrich Blucher, poeta e filósofo marxista que se tornaria seu companheiro por toda a vida, partilhando uma profunda confiança na liberdade de pensamento e uma visão crítica das ideologias totalitárias, tanto de direita quanto de esquerda.

Todavia, a permanência em Paris foi abreviada para ambos, que escaparam para os Estados Unidos, onde Hannah se reinventou completamente, aprendendo inglês rapidamente e mergulhando no ambiente intelectual nova-iorquino, estado americano que a acolheu e lhe oportunizou trabalhar como jornalista, editora e professora, até encontrar seu espaço na academia

3. As origens do totalitarismo,  de Hannah Arendt

E foi justamente neste período, ano de 1951, que germinou sua obra mais influente, intitulado As origens do totalitarismo, obra na qual Hannah faz uma análise primorosa sobre as origens do nazismo e do estalinismo, demonstrando como ambos os regimes se estruturaram a partir da destruição do espaço público, do isolamento do indivíduo e do uso sistemático da mentira, como ferramenta de dominação.

O impacto causado pelo teor da obra de Hannah foi forte, pois seu estilo claro e incisivo, causou rupturas ideológicas que lhe renderam admiração e animosidades das mais diversas origens, pois a autora era uma mulher, estrangeira, judia, pensadora independente e apartidária.

As portas de fecharam para Hannah Arendt, que passou a ser recebida no meio acadêmico com medo e desconfiança, pois se tratava de ambiente predominantemente conservador e masculino, espaço no qual este pensar solo da filosofa judia  e sua recusa em se alinhar com partidos, somado a crítica que fazia abertamente à  complacência intelectual, a tornava pessoa indesejada e temida, por questionar os fundamentos da política, da história e da própria condição humana.

4. Hannah Arendt, a jornalista do New York Times e o julgamento de Eichmann.

 Em 1961, enviada pela revista The New York para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann, Hannah revelou a banalidade do mal ao descrever o acusado não como um monstro, mas como um mero e medíocre burocrata, que  cumpria ordens cegamente, tornando evidente que pessoas comuns podem cometer atrocidades quando estão desprovidas de reflexão crítica.

E, considerando que Adolf Eichmann foi um dos principais mentores e implementadores da logística que moveu a máquina do Holocausto, a constatação de Hannah  não se resumiu a mera cobertura jornalística, indo muito além, pois resultou em uma revolução intelectual, dado seu relato sobre a banalidade do mal ter sido recebida como uma tese desconcertante sobre como os atos de um homem medíocre, e não um monstro cruel, se tornaram um exemplo assustador de como o mal pode se manifestar por meio de pessoas que não apresentam propriamente intenções malignas,  mas a ausência total de pensamento crítico.

 Hannah foi apontada como uma mulher isenta de empatia e até mesmo de culpar as vítimas, recebendo cartas indignadas, ataques públicos e rompimento de amizades, consequências que não a fizeram arredar de seu posicionamento nem um milímetro, jamais dele se retratando, mantendo consagrada sua independência pessoal e de livre pensar, baseado  em seu sentimento de dever moral superior, o que a levou a consolidar sua reputação acadêmica e intelectual,  com edição de novas obras que expandiam sua visão sobre política, liberdade e a experiência humana.

 Fato é que Hannah Arendt não escrevia para agradar, mas para esclarecer suas ideias e é importante pensar que esse mal não está enraizado nas pessoas, mas se materializa a partir delas.

5. Nossa realidade e a banalidade do mal

Trazendo para nossa realidade, podemos imaginar os madeireiros que extraem madeira da Amazonia.

Nós podemos imaginar os extratores de madeira como sendo pessoa maldosas, que cortam as arvores da mata deliberadamente, causando desmatamento como objetivo final de suas práticas nocivas. Mas, em realidade, não passam de trabalhadores braçais que agem movidos pelo senso de sobreviver, sem condições de agir baseados em um pensar crítico, pois dele não dispõem.

Isto não nos os faz inocentes, mas os torna apenas executores de ordens dadas pelos empregadores que os pagam pelos serviços, que executam sem pensar nas consequências.

O que Hannah trouxe com seu pensamento é que a maldade se consolida muitas vezes a partir da conduta de alguém que exerce um papel dentro da teia social em âmbito  meramente burocrático, podendo estar no Poder Judiciário, no Ministério Público, no Conselho Tutelar ou mesmo em sala de aula, como docente/professor.

Segundo Hannah e seu conceito de banalidade do mal, o ato prejudicial ao outro pode se dar a partir de alguém que age sem pensar no impacto de sua decisão diária.

Hannah nos ensinou que a maldade pode se concretizar por meio de um agir de um professor em sala de aula, em relação a um colega de profissão ou a um aluno.

A maldade pode acontecer no dia a dia e ela acontecerá bem debaixo de nossos atos, se sobre eles não nos detivermos com base em nossa capacidade de elaborar um pensamento crítico, se não refletirmos sobre a maldade que é estruturada diariamente em nosso meio.

A meta da educação talvez seja esclarecer de modo mais amplo possível e em todos os espaços de aprendizagem , que há necessidade de se desenvolver o pensamento crítico, a fim de evitar que a barbárie aconteça, seja como se deu no holocausto, seja como se dá em ambientes de custodia , seja como se dá nas ruas, praticadas as maldades por pessoas das mais diversas origens, resultando em violência contra outros de nós ou contra outras espécies, que pode ter por vítima uma pessoa que passa na rua ou mesmo um cachorro que passeia na praia.

6. Conclusão

O que combate a violência e a maldade é a capacidade de pensar criticamente sobre os atos praticados por nós, diante de um seio social que clama por viver em paz.


[1] Eichmann em Jerusalém (1963)

[2] Disponível: @cafedocumentarioToda a história de Hannan Arendt: a filosofa da “banalidade do mal”/Documentário; Acesso em 09.02.26

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