
Luana Paschoal – Mestre em Direito Penal
No gerenciamento de crises de segurança pública, o negociador é o especialista tático responsável por converter cenários de violência iminente em rendições controladas. Considerada a “rainha das alternativas táticas” a negociação resolve cerca de 90% das ocorrências no Brasil, sem a necessidade de intervenção letal, equilibrando psicologia aplicada e inteligência policial.
Só neste mês de março, a relevância deste papel foi ratificada através de dois desfechos bem-sucedidos: o de Salvador (BA),em que o CORE da Polícia Civil interveio em um sequestro relâmpago, no Subúrbio Ferroviário, em que três mulheres foram resgatadas após o negociador estabilizar criminosos acuados, ganhando tempo para o cerco tático e impedindo que o pânico resultasse em execução; e o do Núcleo Bandeirante (DF), em que o BOPE, da PMDF, gerenciou um cárcere privado doméstico, tendo o negociador utilizado laços familiares e escuta ativa para desarmar um homem em surto, evitando um possível homicídio seguido de suicídio.
O trabalho do negociador fundamenta-se em quatro eixos críticos, quais sejam: a) redução do estresse, que se traduz em baixar a temperatura emocional do agressor, movendo-o de um estado de irracionalidade, para um patamar onde a rendição possa ser discutida; b) ganho de tempo, em que todo minuto de diálogo permite que a inteligência colha dados e que as equipes de invasão e atiradores de elite se posicionem com precisão milimétrica; c) humanização (Rapport), que se configura por estabelecer um vínculo que impeça o agressor de ver o refém como um mero objeto, dificultando psicologicamente a agressão à vítima e d) coleta de dados, uma vez que o negociador, através de seu trabalho, se converte em olhos e ouvidos do comando, identificando armas, perfis psicológicos e o estado de saúde dos reféns em tempo real.
O desfecho bem-sucedido das operações mencionadas em Salvador e no Distrito Federal confirma a eficiência da doutrina de gerenciamento de crises adotada pelas polícias brasileiras. O papel do negociador, longe de ser meramente intuitivo, é uma função técnica essencial que permite ao comando da operação avaliar riscos com maior clareza e postergar o uso da força letal.
A atuação desses especialistas garante que a intervenção tática seja apenas o último recurso, priorizando a rendição controlada e o cumprimento da lei. Em suma, o investimento em treinamento de negociação nas unidades de elite, como o CORE e o BOPE, reflete uma transição necessária para um modelo de segurança pública baseado em inteligência e evidências, onde a preservação de todas as vidas envolvidas é o principal indicador de sucesso de uma missão.



