O modelo de policiamento orientado para a solução se problemas (Herman Goldstein) e sua aplicação na formação do tecnólogo em segurança pública

André Luís Luengo – Doutor em Direito Constitucional e Delegado de Polícia

Resumo

O presente artigo analisa o modelo de Policiamento Orientado para a Solução de Problemas (Problem-Oriented Policing – POP), desenvolvido por Herman Goldstein, destacando seus fundamentos teóricos, sua metodologia operacional e sua relevância para a modernização das instituições policiais. A partir da crítica ao modelo tradicional reativo, Goldstein propôs uma abordagem centrada na identificação e análise das causas estruturais dos problemas criminais, priorizando intervenções estratégicas e avaliação de resultados. O estudo examina o método SARA (Scanning, Analysis, Response, Assessment) como instrumento estruturante do modelo e discute sua aplicabilidade no contexto brasileiro, especialmente no âmbito da polícia judiciária. Além disso, analisa-se a contribuição do Tecnólogo em Segurança Pública como agente estratégico na implementação do POP, considerando sua formação voltada à análise de dados, planejamento e gestão de políticas públicas. Conclui-se que o modelo fortalece a profissionalização da atividade policial e amplia a capacidade institucional de produzir respostas baseadas em evidências, integrando prevenção, investigação e avaliação de resultados.

Palavras-chave: Policiamento orientado para problemas; Herman Goldstein; Segurança pública; Análise criminal; Tecnólogo em Segurança Pública.

1. Introdução

A evolução dos modelos de policiamento ao longo do século XX demonstra uma transição gradual da atuação predominantemente reativa para estratégias fundamentadas em planejamento, análise e prevenção.

Nesse contexto, destaca-se o Policiamento Orientado para a Solução de Problemas, concebido por Herman Goldstein, cuja proposta rompe com a lógica de simples resposta a ocorrências para concentrar-se na identificação das causas estruturais dos fenômenos criminais.

A relevância do tema para o Curso Superior de Tecnologia em Segurança Pública reside na necessidade de formação de profissionais capazes de compreender o crime como fenômeno multidimensional e de estruturar respostas institucionais baseadas em evidências.

2. Fundamentos teóricos do policiamento orientado para problemas

O modelo foi inicialmente apresentado em 1979 e posteriormente sistematizado por Herman Goldstein na obra Problem-Oriented Policing. Goldstein partiu de uma crítica estrutural ao modelo tradicional de policiamento, marcado por forte burocratização, fragmentação das atividades e centralidade excessiva na resposta imediata ao chamado de emergência.

Para o autor, a organização policial havia se tornado excessivamente orientada por procedimentos padronizados e indicadores quantitativos de produtividade (como número de prisões ou de ocorrências atendidas), sem que houvesse reflexão consistente sobre a efetiva solução dos problemas que geravam tais demandas.

Segundo Goldstein, a polícia tende a lidar repetidamente com as consequências de problemas persistentes, sem intervir em suas causas.

O modelo reativo cria um ciclo de reincidência operacional: atende-se a ocorrência, formaliza-se o registro, realiza-se eventual prisão, mas o problema estrutural permanece intacto.

A proposta do Policiamento Orientado para Problemas (POP) rompe com essa lógica ao defender que a unidade de análise da atividade policial não deve ser o incidente isolado, mas sim o “problema” enquanto padrão recorrente de eventos semelhantes.

O conceito de “problema”, no âmbito do POP, é definido como um conjunto de ocorrências similares que causam danos à comunidade e cuja repetição indica a existência de fatores subjacentes comuns.

Assim, furtos reiterados em determinada área comercial, violência doméstica concentrada em um território específico ou golpes virtuais com idêntico modus operandi não são eventos desconectados, mas manifestações de um fenômeno estruturado que exige diagnóstico aprofundado.

Essa mudança representa verdadeira ruptura epistemológica na compreensão da atividade policial. O crime deixa de ser tratado exclusivamente como infração penal individualizada, objeto de tipificação e persecução e, passa a ser analisado como fenômeno social contextualizado, inserido em dinâmicas urbanas, econômicas e culturais.

A abordagem aproxima-se de perspectivas da criminologia ambiental e da teoria das atividades rotineiras, ao reconhecer que oportunidades, vulnerabilidades e organização do espaço influenciam diretamente a ocorrência de delitos.

Outro fundamento teórico central do modelo reside na valorização da análise empírica. Goldstein defende que decisões policiais devem ser baseadas em dados concretos, estudos locais e avaliação sistemática de resultados.

A polícia, nesse contexto, assume papel de produtora de conhecimento aplicado, superando a lógica puramente operacional. Trata-se de deslocamento do paradigma da reação para o paradigma da gestão estratégica.

Além disso, o POP introduz a ideia de corresponsabilidade institucional. Muitos problemas criminais não podem ser resolvidos exclusivamente pela repressão penal.

Demandam intervenções de natureza administrativa, urbanística, social ou educacional. A polícia passa a atuar como articuladora de soluções, promovendo integração com outros órgãos públicos e com a comunidade.

Do ponto de vista organizacional, o modelo exige descentralização controlada, autonomia responsável dos gestores locais e estímulo à inovação. O policial deixa de ser mero executor de rotinas e passa a ser agente analítico, capaz de formular hipóteses, testar estratégias e avaliar impactos. Essa transformação implica mudança cultural significativa dentro das instituições.

Em síntese, os fundamentos teóricos do Policiamento Orientado para Problemas repousam sobre quatro pilares centrais: superação do modelo reativo tradicional; redefinição da unidade de análise da atividade policial (do incidente ao problema); valorização da análise empírica e da avaliação de resultados; e integração interinstitucional e foco preventivo.

Essa base conceitual confere ao modelo não apenas caráter operacional, mas também dimensão teórica consistente, capaz de reorientar a identidade profissional e estratégica das organizações policiais contemporâneas.

3. O método sara

A operacionalização do Policiamento Orientado para a Solução de Problemas estrutura-se, de maneira sistemática, por meio do método SARA (Scanning, Analysis, Response, Assessment), instrumento metodológico que organiza a atuação policial em ciclos contínuos de diagnóstico, intervenção e avaliação.

O método não representa mera sequência administrativa de atos, mas verdadeiro modelo analítico de gestão estratégica aplicado à segurança pública.

O SARA permite transformar percepções difusas de desordem ou criminalidade em problemas definidos, mensuráveis e passíveis de intervenção planejada.

Sua aplicação exige disciplina metodológica, capacidade analítica e produção qualificada de dados, aproximando a prática policial de padrões científicos de investigação empírica.

3.1 Scanning (Identificação)

A etapa de identificação consiste no reconhecimento sistemático de problemas recorrentes que demandam intervenção estratégica.

Não se trata de registrar ocorrências isoladas, mas de identificar padrões de repetição que indicam fenômeno persistente.

Nessa fase, utilizam-se múltiplas fontes de informação: registros de boletins de ocorrência; dados estatísticos consolidados; informações de inteligência policial; mapas de calor (hot spots); eeclamações comunitárias; e relatórios de órgãos públicos parceiros.

A correta delimitação do problema é elemento crítico. Um diagnóstico impreciso pode comprometer todas as etapas subsequentes. Por exemplo, afirmar genericamente que há “aumento de furtos” é insuficiente. É necessário especificar: qual tipo de furto? Em qual localidade? Em quais horários? Com qual perfil de vítimas? Com que padrão de execução?

A definição clara do problema permite estabelecer indicadores objetivos para posterior avaliação.

3.2 Analysis (Análise)

A fase de análise representa o núcleo estruturante do método. Aqui se busca compreender as causas e os fatores que sustentam o problema identificado. A análise ultrapassa a descrição estatística e adentra a investigação das dinâmicas sociais, ambientais e organizacionais envolvidas.

Podem ser considerados: condições urbanísticas (iluminação, abandono de imóveis, ausência de vigilância); vulnerabilidades sociais; oportunidades criminais recorrentes; falhas administrativas; reincidência de autores; e ausência de integração institucional.

Ferramentas analíticas como georreferenciamento, cruzamento de bancos de dados, entrevistas estruturadas e análise de modus operandi tornam-se fundamentais.

Essa etapa aproxima-se da lógica investigativa da polícia judiciária, na medida em que exige formulação de hipóteses explicativas e verificação empírica.

Sem análise aprofundada, a resposta tende a reproduzir soluções padronizadas e pouco eficazes.

3.3 Response (Resposta)

A resposta consiste na formulação de estratégias específicas, construídas com base nos dados coletados e nas hipóteses confirmadas. Diferentemente do modelo tradicional, a prisão não é a única ou necessariamente a principal solução.

As respostas podem incluir: reorganização do patrulhamento; intervenções urbanísticas; ações educativas; fiscalizações administrativas; parcerias com assistência social; ajustes procedimentais internos; e operações dirigidas a grupos específicos.

A característica central da resposta no método SARA é sua personalização. Cada problema exige solução adequada à sua natureza. A atuação interinstitucional assume papel relevante, pois muitos fatores geradores da criminalidade extrapolam a esfera exclusivamente penal.

No âmbito da polícia judiciária, por exemplo, a análise de golpes virtuais recorrentes pode gerar resposta que envolva campanhas preventivas, articulação com instituições bancárias e aperfeiçoamento dos fluxos de investigação.

3.4 Assessment (Avaliação)

A avaliação corresponde à verificação objetiva da efetividade das medidas adotadas. Trata-se de etapa frequentemente negligenciada em modelos tradicionais de policiamento.

A mensuração pode envolver: comparação estatística antes e depois da intervenção; redução de reincidência; indicadores de vitimização; percepção comunitária; e avaliação qualitativa dos resultados.

Caso a estratégia não produza os efeitos esperados, o ciclo reinicia, permitindo ajustes e aperfeiçoamentos. O método SARA, portanto, não é linear, mas circular e contínuo.

A avaliação contínua constitui elemento central do modelo, rompendo com a cultura institucional de respostas imediatas sem aferição de impacto. Ela introduz lógica de accountability interna e reforça a ideia de que políticas de segurança pública devem ser orientadas por evidências, e não apenas por tradição ou intuição operacional.

Em síntese, o método SARA transforma a atividade policial em processo sistemático de gestão de problemas, aproximando-a de padrões técnicos e científicos compatíveis com a complexidade contemporânea da segurança pública.

4. Aplicabilidade na polícia judiciária

Embora frequentemente associado ao policiamento ostensivo, o Policiamento Orientado para a Solução de Problemas possui plena aplicabilidade no âmbito da polícia judiciária. A lógica do POP, centrada na identificação de padrões, análise causal e formulação de respostas estratégicas, é compatível com a natureza técnico-jurídica da investigação criminal.

Tradicionalmente, a atuação da polícia judiciária estrutura-se a partir da instauração de inquéritos individuais, cada qual voltado à apuração de um fato típico específico. Essa fragmentação, embora necessária sob o ponto de vista processual, pode dificultar a percepção de fenômenos criminosos recorrentes que ultrapassam os limites formais de cada procedimento.

A incorporação da metodologia do POP permite superar essa visão compartimentalizada. Delegacias podem utilizar ferramentas de análise criminal para identificar padrões de: estelionatos com modus operandi semelhante; furtos ou roubos seriados em determinada região; crimes cibernéticos com idêntica engenharia social; reiteração de violência doméstica em contextos específicos; e crimes patrimoniais vinculados a falhas estruturais urbanas.

A análise integrada de dados, cruzando boletins de ocorrência, termos circunstanciados, representações, relatórios de inteligência e informações bancárias, possibilita identificar conexões que não seriam percebidas em análises isoladas.

No âmbito da investigação criminal, a análise sistemática de dados também permite identificar falhas procedimentais, gargalos institucionais e oportunidades de prevenção. Por exemplo: excesso de tempo médio para cumprimento de diligências; acúmulo de inquéritos por determinado tipo penal; baixa taxa de elucidação em crimes específicos; e reiteração de arquivamentos por insuficiência probatória.

Esses indicadores não apenas orientam a gestão administrativa da unidade policial, mas subsidiam decisões estratégicas, como redistribuição de equipes, especialização temática ou criação de fluxos padronizados de investigação.

Além disso, o POP fortalece a atuação investigativa estratégica em crimes complexos, como lavagem de dinheiro e organizações criminosas. A identificação de padrões financeiros, vínculos societários recorrentes ou rotas logísticas repetidas exige abordagem sistêmica, compatível com a lógica de problema estruturado proposta por Herman Goldstein.

Outro aspecto relevante refere-se à prevenção qualificada. A investigação não se limita à responsabilização penal do autor, mas pode gerar recomendações administrativas ou normativas.

Ao identificar vulnerabilidades exploradas reiteradamente por criminosos, como fragilidades em sistemas bancários, ausência de fiscalização administrativa ou falhas de segurança digital, a polícia judiciária pode atuar como produtora de conhecimento preventivo.

A aplicabilidade do POP também se manifesta na organização interna das delegacias. A análise de fluxo de trabalho, tempo de tramitação de procedimentos e cumprimento de prazos pode ser tratada como “problema organizacional”, submetido ao ciclo SARA. Assim, a metodologia não se restringe ao enfrentamento da criminalidade externa, mas contribui para o aperfeiçoamento institucional.

Sob perspectiva estratégica, a adoção do POP pela polícia judiciária reforça três dimensões fundamentais: integração entre investigação e inteligência; planejamento com base em evidências empíricas; e avaliação contínua de desempenho investigativo.

A polícia judiciária, ao incorporar essa lógica, deixa de atuar exclusivamente de forma reativa e passa a exercer função analítica e preventiva, compatível com as demandas contemporâneas de eficiência, transparência e accountability.

Dessa forma, o Policiamento Orientado para a Solução de Problemas não representa apenas modelo aplicável ao policiamento ostensivo, mas instrumento metodológico capaz de qualificar a investigação criminal, ampliar a capacidade de diagnóstico institucional e promover respostas estruturais mais eficazes no âmbito da segurança pública.

5. O tecnólogo em segurança pública e a implementação do pop

A formação do Tecnólogo em Segurança Pública apresenta convergência direta com os pressupostos do Policiamento Orientado para a Solução de Problemas.

Ao contrário de formações estritamente operacionais, o curso tecnológico estrutura-se sobre bases interdisciplinares que articulam criminologia, sociologia, gestão pública, estatística aplicada, metodologia científica, direitos humanos e planejamento estratégico. Essa matriz formativa fornece instrumental técnico compatível com a lógica analítica proposta por Herman Goldstein.

O POP exige capacidade de leitura sistêmica da realidade, interpretação de dados e formulação de hipóteses explicativas, competências desenvolvidas ao longo da formação tecnológica. O tecnólogo é preparado para compreender a segurança pública não apenas como campo repressivo, mas como política pública estruturada, sujeita a diagnóstico, planejamento, execução e avaliação.

Nesse contexto, o profissional tecnólogo pode contribuir de maneira concreta e estratégica na elaboração de diagnósticos territoriais, utilizando indicadores socioeconômicos, mapas criminais, dados demográficos e estatísticas de vitimização para identificar problemas recorrentes em determinadas áreas.

Na análise estatística de ocorrências: aplicando técnicas de organização e interpretação de dados, identificando tendências, sazonalidades e padrões de repetição.

Na produção de relatórios estratégicos: sistematizando informações para subsidiar decisões do Delegado de Polícia ou da chefia institucional, com base em evidências empíricas.

Na avaliação de políticas públicas de segurança: medindo resultados de operações, programas preventivos e fluxos investigativos, verificando sua efetividade.

Na integração interinstitucional: articulando informações com órgãos municipais, Ministério Público, Poder Judiciário, assistência social e instituições privadas.

A atuação do tecnólogo também se revela relevante no âmbito da polícia judiciária, especialmente na organização interna das unidades. A análise de produtividade, tempo médio de conclusão de inquéritos, taxa de elucidação por tipo penal e reincidência territorial pode ser estruturada como problema institucional a ser enfrentado sob a lógica do SARA.

Além disso, o profissional tecnólogo pode desempenhar papel fundamental na institucionalização de rotinas de análise criminal. A criação de núcleos internos de estatística e planejamento, a padronização de relatórios periódicos e a consolidação de bancos de dados são medidas que fortalecem a cultura organizacional orientada por evidências.

Importa destacar que a implementação do POP demanda mudança cultural. Instituições tradicionalmente estruturadas sob lógica hierárquica e reativa tendem a apresentar resistência à adoção de métodos analíticos e avaliativos. Nesse cenário, o tecnólogo atua como vetor de inovação, introduzindo práticas de gestão baseadas em dados e promovendo racionalização dos recursos disponíveis.

Outro ponto relevante refere-se à ética e aos direitos humanos. A formação tecnológica enfatiza a necessidade de atuação compatível com princípios constitucionais e com o controle de convencionalidade. O POP, ao priorizar prevenção qualificada e redução de danos estruturais, harmoniza-se com essa perspectiva, evitando intervenções exclusivamente repressivas e estimulando soluções proporcionais e contextualizadas.

Sob perspectiva estratégica, o tecnólogo em Segurança Pública contribui para a profissionalização da gestão policial, bem como para a consolidação de políticas baseadas em evidências e a redução da reincidência de problemas estruturais. Assim, consegue ampliar a eficiência investigativa e fortalecer a legitimidade institucional perante a sociedade.

Sua atuação fortalece a cultura organizacional baseada em evidências, contribuindo para decisões mais qualificadas no âmbito da polícia judiciária. Ao integrar conhecimento científico e prática institucional, o tecnólogo consolida-se como agente técnico capaz de operacionalizar, de forma consistente, os pressupostos do Policiamento Orientado para a Solução de Problemas dentro das organizações policiais contemporâneas.

6. Desafios para implementação

A implementação do Policiamento Orientado para a Solução de Problemas representa transformação estrutural na cultura organizacional das instituições policiais. Não se trata apenas de adotar uma nova metodologia, mas de modificar a forma como o trabalho policial é concebido, planejado e avaliado. Nesse cenário, diversos obstáculos se impõem à consolidação efetiva do modelo.

Entre os principais desafios destacam-se a resistência cultural interna, como também a insuficiência de bases de dados integradas, agravada pela escassez de capacitação analítica e a pressão por resultados imediatos.

A resistência cultural interna talvez constitua o obstáculo mais significativo. Instituições policiais historicamente estruturadas sob lógica hierárquica e reativa tendem a valorizar produtividade quantitativa (prisões, flagrantes, registros) em detrimento de resultados qualitativos e estruturais. A proposta de dedicar tempo à análise aprofundada de problemas pode ser percebida, equivocadamente, como redução da atividade operacional. A mudança exige liderança comprometida, capacitação contínua e incentivo institucional à inovação.

Outro desafio relevante reside na insuficiência de bases de dados integradas. A fragmentação informacional compromete a etapa de análise do método SARA. Sistemas que não dialogam entre si, ausência de padronização de registros e dificuldades de acesso a dados interinstitucionais limitam a capacidade de identificação de padrões e conexões. A consolidação do POP pressupõe investimentos em tecnologia da informação, interoperabilidade de sistemas e governança de dados.

A escassez de capacitação analítica também impacta diretamente a implementação do modelo. A análise criminal demanda domínio mínimo de estatística aplicada, interpretação de indicadores, leitura territorial e formulação de hipóteses explicativas. Sem formação adequada, como aquela oferecida em cursos superiores tecnológicos em Segurança Pública, o método pode ser aplicado de forma superficial, reduzido a preenchimento formal de relatórios.

A pressão por resultados imediatos constitui obstáculo estrutural adicional. A dinâmica política e social frequentemente exige respostas rápidas a episódios de grande repercussão. Contudo, o POP trabalha com lógica de médio e longo prazo, voltada à redução sustentável de problemas recorrentes. A tensão entre urgência midiática e planejamento estratégico pode comprometer a continuidade das ações.

Há ainda outros desafios complementares que merecem destaque, como as limitações orçamentárias, que dificultam implementação de soluções interinstitucionais, a alta rotatividade de gestores, que compromete a continuidade dos projetos, e a falta de indicadores claros de desempenho qualitativo, substituídos por métricas exclusivamente quantitativas. Tudo igualmente agravado pela ausência de cultura de avaliação institucional sistemática.

Sem estrutura adequada, o modelo pode ser reduzido a formalidade administrativa, sem impacto concreto na redução da criminalidade. O risco da “burocratização do POP” é real: relatórios são produzidos, reuniões são realizadas, mas não há mudança efetiva nas práticas institucionais.

Para superar tais obstáculos, tornam-se necessárias algumas medidas estruturantes, tais como:

  1. Capacitação continuada em análise criminal e gestão baseada em evidências;
  2. Criação de núcleos internos de planejamento e estatística;
  3. Estabelecimento de indicadores de desempenho qualitativo;
  4. Incentivo institucional à inovação e à avaliação de resultados; e
  5. Fortalecimento da integração interinstitucional.

A implementação efetiva do Policiamento Orientado para a Solução de Problemas depende, portanto, de compromisso institucional, investimento em formação técnica e consolidação de cultura organizacional orientada por evidências. Somente assim o modelo poderá transcender o plano teórico e produzir impactos concretos na eficiência investigativa e na redução sustentável dos problemas criminais.

7. Considerações finais

O Policiamento Orientado para a Solução de Problemas representa avanço significativo na profissionalização das instituições policiais. Ao priorizar análise, planejamento e avaliação, promove decisões estratégicas e sustentáveis, superando a lógica meramente reativa que historicamente marcou a atuação policial.

A principal contribuição do modelo reside na redefinição da unidade de trabalho policial: do atendimento ao incidente isolado para a compreensão do problema estruturado. Essa mudança implica amadurecimento institucional, pois exige capacidade de diagnóstico, produção de conhecimento aplicado e mensuração de resultados. A polícia deixa de atuar apenas como órgão executor da lei penal e passa a assumir função estratégica na formulação de soluções preventivas.

No âmbito da polícia judiciária, essa transformação é particularmente relevante. A investigação criminal, quando orientada por padrões e análises integradas, torna-se mais eficiente e menos fragmentada. A identificação de séries delitivas, vulnerabilidades sistêmicas e falhas procedimentais fortalece a capacidade de resposta institucional e amplia a taxa de elucidação de crimes. Além disso, a produção de relatórios analíticos qualificados contribui para decisões fundamentadas e alinhadas com princípios constitucionais.

A inserção do Tecnólogo em Segurança Pública nesse contexto fortalece a capacidade institucional de enfrentar problemas complexos com base em evidências empíricas e metodologia científica, contribuindo para uma segurança pública mais eficiente e democrática. O profissional tecnólogo, ao dominar instrumentos de análise de dados, planejamento estratégico e avaliação de políticas públicas, atua como elemento catalisador da cultura organizacional orientada por resultados.

Importa ressaltar que a consolidação do modelo depende de comprometimento institucional contínuo. Não se trata de inovação pontual, mas de mudança paradigmática. A incorporação do ciclo analítico à rotina policial requer liderança técnica, investimento em formação e consolidação de sistemas de informação confiáveis.

Além disso, o Policiamento Orientado para a Solução de Problemas harmoniza-se com princípios contemporâneos de governança pública, como transparência, accountability e eficiência administrativa. Ao mensurar resultados e justificar decisões com base em dados, a instituição policial reforça sua legitimidade perante a sociedade e amplia a confiança pública.

Em síntese, o POP não é apenas metodologia operacional, mas instrumento de modernização institucional. Sua implementação, aliada à formação qualificada do Tecnólogo em Segurança Pública, representa caminho promissor para a construção de uma polícia mais estratégica, técnica e comprometida com a redução sustentável dos problemas criminais.

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