
Nohara Paschoal – Advogada. Mestre em Direito Penal pela USP. Sócia da Paschoal Advogados. Professora do Curso de Segurança Pública da Faculdade VP.
A sensação de insegurança no Brasil consolidou-se como uma experiência subjetiva onipresente que molda o comportamento dos cidadãos, independentemente de classe social ou idade.
Segundo a pesquisa realizada pela OMA Pesquisa, em parceira com o Instituto Sou da Paz, publicada no último dia 18 de maio, o sentimento de vulnerabilidade não é apenas uma reação a estatísticas, mas uma pressão permanente que atinge inclusive quem não foi vítima direta de crimes recentes.
Os dados revelam que 94% da população residente em capitais e regiões metropolitanas percebe algum grau de violência na sua cidade.
Este índice é particularmente crítico no Sudeste, onde 61% dos entrevistados classificam as suas cidades como “muito” ou “super violentas”.
Contudo, a pesquisa identifica um padrão territorial: a insegurança diminui à medida que o espaço se torna mais familiar. Enquanto apenas 32% se sentem seguros na sua cidade, este número sobe para 47% no bairro e atinge 59% na própria rua onde o cidadão reside.
Esta “segurança de proximidade” sugere que o medo é amplificado pelo desconhecido e pelos espaços públicos mais amplos, reforçando a importância de estratégias de policiamento comunitário.
A insegurança no Brasil é estruturada pelo que o estudo denomina “pacote roubo”, crimes que dialogam diretamente com a vida real das pessoas. Os números são expressivos: 91% identificam roubos e furtos como a principal violência; 89% destacam o roubo de celulares e 89% apontam o tráfico de drogas como fator crítico.
A violência contra as mulheres também ocupa o centro das preocupações, sendo identificada por 83% dos entrevistados nas suas cidades.
Esse cenário força uma mudança drástica de hábitos: 57% da população alterou a sua rotina por medo. Entre as mulheres, esse índice chega a 63%, enquanto entre os homens é de 51%. As principais mudanças incluem evitar sair à noite (53%) e deixar de utilizar o celular na rua (31%). O sentimento predominante é de que a prevenção deixou de ser uma função estatal, resumindo-se à frase: “a prevenção somos nós”.
A confiança nas instituições de segurança é moderada, com a Polícia Federal liderando o índice (68%), seguida pela Polícia Civil e Militar (ambas com 62%).
Apesar do elevado sentimento de impunidade — 82% concordam que “a polícia prende e a Justiça solta” — a população demonstra um posicionamento surpreendentemente pragmático e legalista, rejeitando soluções baseadas meramente na violência.
Ao contrário do que o senso comum punitivista sugere, o brasileiro médio (pelo menos os entrevistados) prefere a eficácia da lei ao arbítrio: 73% afirmam que todos os criminosos devem ser julgados, punidos e presos dentro da lei, enquanto apenas 21% apoiam a máxima de que “bandido bom é bandido morto”.
Por sua vez, no lugar de novas penas, 73% defendem que o foco deve ser garantir e aplicar as penas que já existem.
Ainda, 77% são a favor do uso de câmaras corporais nas fardas, vendo-as como proteção para o bom policial e geradoras de provas, contra apenas 12% que as consideram um entrave. E, para 55% dos entrevistados, o País não precisa de “mais polícia”, mas sim de uma polícia melhor e mais preparada.
A pesquisa também desconstrói a narrativa de que a população deseja armar-se para resolver o problema da segurança.
De fato, 60% dos entrevistados são contrários à posse de armas de fogo em casa, número que sobe para 69% entre as mulheres. Além disso, 65% acreditam que mais armas resultam em mais violência e 73% reconhecem que armas legais frequentemente acabam nas mãos de criminosos após furtos ou roubos.
A análise dos dados revela que a opinião pública brasileira apresenta um cenário diversificado, indo além de visões estritamente punitivas. Os resultados indicam que uma parcela majoritária da população prioriza a legalidade, a inteligência e o aprimoramento da eficácia das instituições de segurança como caminhos para o combate à criminalidade.
Existe uma demanda para que o Estado restabeleça o controle em territórios onde 37% dos cidadãos percebem a influência do crime organizado. No entanto, a maioria dos entrevistados defende que esta atuação ocorra dentro do sistema legal vigente, com eficiência institucional e respeito pelas leis, rejeitando atalhos violentos.



