
Oséias Francisco da Silva – Supervisor da Guarda Civil Municipal, formado em Filosofia e Mestre em Políticas Públicas, Pós-graduado em Gestão de Segurança Pública.
É um assunto difícil de comentar, um ato humano que choca, pode suspender os pensamentos por alguns instantes e em seguida liberar um turbilhão de pensamentos, sentimentos, apreensões, angústias. O poeta e cantor Gonzaguinha, na música O que é o que é, diz: “ninguém quer a morte / só saúde e sorte”. É verdade, porque a vida é uma dádiva divina e fico com a pureza / da resposta das crianças / é a vida, é bonita / e é bonita /.
A interrupção da vida, a morte autoprovocada, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) atinge anualmente, no mundo, 700 mil pessoas, e a prevenção é uma medida necessária. O que motiva alguém a levar a cabo sua própria vida? A resposta possível não é simples porque cada caso é um caso que tem sua história, motivação e personagem com sua história e sua estrutura psicoemocional. Uma idiossincrasia. Pessoas diferentes com histórias de vidas diferentes passando pela mesma situação, trauma e crise, e têm reações diferentes. Por isso, não é possível fazer comparações entre os casos e fazer julgamentos.
Em 2015 o livro[1] Um novo modelo de segurança pública para o Brasil, democrática, cidadã e humana, de minha autoria, no capítulo VII, O estranho do ninho: reflexões sobre a vida do policial, tentei ao meu modo expressar o dilema vivido pelos agentes responsáveis pela aplicação da lei. No livro e especificamente no capítulo em destaque, falo do processo paradoxal que vivem os policiais dos órgãos que integram a segurança pública do País, onde passam a ressignificarem suas vidas e relações a partir da profissão. Lugares, festas, pessoas passam por um processo natural de filtragem. Em razão do contexto da violência perversa que também atinge os agentes públicos da segurança pública resulta o fenômeno da invisibilidade policial, onde a identidade funcional e o uniforme ou farda são escondidos. A maioria dos agentes da base das corporações vem das classes socioeconômicas menos favorecidas e quando ingressam na carreira uma das primeiras medidas é sair do lugar que moram, onde tem suas raízes familiares, amigos e rotinas.
Conforme dados[2] publicados, no Brasil do ano de 2015 Ao ano de 2025, foram assassinados 2.508 agentes responsáveis pela aplicação da lei (polícia penal, polícia rodoviária federal, polícia militar, polícia civil e guardas municipais). Em 2015 foram 193, em 2016 foram 329, em 2017 foram 390, em 2018 foram 345, em 2019 foram 194, em 2020 foram 208, em 2021 foram 195, em 2022 foram 182, em 2023 foram 181, em 2024 foram 181 e em 2025 foram 173 policiais assassinados. Esses números são para apresentar um quadro grave de mortes de policiais que não pode ser desprezado, banalizado ou naturalizado. Todas as vidas importam, mas a vida dos policiais é diferente porque, diferentemente da população em geral, os policiais são representações do Estado, do Contrato Social firmado no processo civilizatório. A morte do policial em serviço ou decorrente dele é uma ofensa ao Poder Público e a sociedade, pois não é o CPF, pessoa física, mas o CNPJ, a pessoa jurídica representada. Mas, infelizmente, tanto a morte dos policiais quanto a morte da população em geral foram naturalizadas, banalizadas no País.
E outro elemento que coloco nesse contexto da reflexão proposta é o estresse advindo do exercício da profissão. O cenário complexo da criminalidade e violência urbana que acomete o País cria naturalmente uma atmosfera de tensão permanente que se amplia nos atendimentos das ocorrências decorrentes dos conflitos sociais e com os criminosos. O estresse é causa de algumas doenças psicossomáticas. Quando acrescentamos a baixa valorização salarial, principalmente dos agentes da base das corporações, que inexoravelmente empurra os profissionais a buscarem outras atividades para complementar a renda, o quadro se agrava. E nesse contexto, de baixa valorização salarial, existem solução institucional e pessoal. Tanto uma como a outra exige o sacrifício do tempo livre depois da jornada ordinária de trabalho, ou seja, mais trabalho e menos tempo livre. A solução institucional é criar formas de aumentar a jornada de trabalho, seja horas extras ou outros expedientes para possibilitar um ganho complementar aos agentes. Ou os próprios agentes procuraram os chamados “bicos” para trabalharem em suas folgas. Uma diferença entre as duas soluções apresentadas é a cobertura de segurança dos agentes, que na solução institucional é maior e nos bicos é menor, ou seja, nos bicos eles ficam muito mais vulneráveis.
Agora imagine você como fica esse agente policial para trabalhar num cenário de estresse e atender a população depois de uma jornada sem fim. Digo jornada sem fim porque muitos nem dormem entre uma e outra jornada e quando dorme é insuficientemente para sua recuperação. Estudo[3] indicam que uma pessoa adulta precisa de 6 a 9 horas de sono para recuperação. Ainda é salutar levar em consideração que entre essas jornadas existe as jornadas domésticas e familiares, que na maioria das vezes, são maiores entre as mulheres. E destaco com todas as ênfases necessárias que os agentes da segurança pública não são heróis e heroínas, são seres humanos normais como todos os demais da sociedade com suas fragilidades e necessidades.
A lei federal 13.675, de 11 de junho de 2018 que criou o sistema único de segurança pública no país, no capítulo VII trata da capacitação e da valorização do profissional em segurança pública e defesa social, Seção I
do sistema integrado de educação e valorização profissional (SIEVAP), descrito no artigo 38. E no artigo 42 dessa norma, Seção II, cria o Programa Nacional de Qualidade de Vida para Profissionais de Segurança Pública (Pró-Vida). A iniciativa e intenção da lei é louvável, mas falha em sua efetividade quando não criar mecanismos para tornar factíveis suas propostas. E como as leis nesse País ou não colam na realidade ou demoram demasiadamente para colarem, essa em específico não é exceção, mas segue a regra.
O que me levou a compartilhar com vocês essa reflexão foi um fato recente, um suicídio em minha corporação, de um integrante de minha equipe, de um amigo, profissional, ser humano. Infelizmente já teve muitos casos de suicídio na guarda civil municipal de São Bernardo do Campo, mas esse caso em particular era de alguém que integrava a equipe que comandava no plantão noturno e que acompanhava há anos sua história, suas realizações, suas frustrações, seus dilemas e sua aspirações. Nosso trabalho nos permite viver como uma família, passamos a metade de nosso dia, 12 horas juntos, e quando um membro da equipe parte, morre, causa um grande impacto.
Todos nós que atuamos na segurança pública, pelo contexto de violência acima descrito, sabemos e assumimos o risco da profissão, e que pode acontecer, como já aconteceu, de alguém ser vítima da covardia dos criminosos, mas o suicídio, um atentado contra a própria vida impacta com mais intensidade porque nos indagamos, sem encontrar uma resposta conclusiva, se podíamos fazer algo a mais para evitá-lo. O amigo em comento tinha sonhos, inclusive estava cheio de expectativas porque estava próximo seu casamento, mas carregava no peito e na mente demandas traumáticas do passado recente que enfrentava e buscava encontrar soluções para continuar sua caminha mais leve e prosperando. Mas, no dia 15 de abril de 2026 o inesperado aconteceu, não tirou a sua vida, mas uma tentativa de se livrar de uma dor e angústia inexprimíveis, porque queria viver como cantou Gonzaguinha, ninguém quer a morte/ só saúde e sorte.
Esse fenômeno, suicídio, atinge todos os órgãos que integram a segurança pública do Brasil, em 2023 foram 174 e em 2024 foram 151 mortes autoprovocadas de policiais conforme dados[4] publicados pela Ministério Público do Trabalho (MPT). São números preocupantes que deveriam mobilizar autoridades públicas e sociedade para buscarem um diagnóstico das causas e construírem conjuntamente soluções a fim de cria as condições institucional e sociais possíveis para prevenir os casos. É cuidar daqueles de têm a missão de cuidar da incolumidade pessoal e patrimonial da população, inclusive com sacrifício de suas vidas.
É possível evitar o suicídio nas corporações da segurança pública? Evitar 100% não porque esse fenômeno é multicausal e pode um profissional está contente e realizado no seu trabalho, mas questões extra corporação lhe afetarem de maneira a lhe desestruturar do ponto de vista físico e psicoemocionalmente. Mas, as corporações, em obediência a lei 13.675/2018 e outras normas correlatas, devem criar as condições de valorização salarial adequada a complexidade do trabalho desenvolvido; devem promover/incentivar entre seus membros o exercício de atividades física, cultural, entretenimento e espiritualista; criar as condições decentes para o desempenho das atividades laborativas; devem criar equipamentos de apoio e acolhimento psicossocial com ações de prevenção, suporte e restabelecimento ao exercício da atividade. Essas sugestões não esgotam as possibilidades de ações preventivas, mas ajudam quando aplicada a melhorar a qualidade de vida dos profissionais que vai ter como uma das consequências a mitigação dos pontos vulneráveis e fortalecer do ponto de vista profissional, emocional e psicológico seus agentes para que desenvolvam suas atividades e enfrentem e superem os desafios decorrentes direta ou indiretamente dela.
[1] SILVA, Oséias Francisco. Um novo modelo de segurança para o Brasil, democrática, cidadã e humana. Disponível em: https://www.amazon.com.br/modelo-segurança-Brasil-Democrática-cidadã-ebook/dp/B08QTZ8STS. Acessado em 19 de abril de 2026.
[2] INSTITUTO MONTE CASTELO. Mortalidade policial – os agentes de segurança pública assassinados no Brasil em 2025. Disponível em: https://montecastelo.org/mortalidadepolicial/. Acessado em 20 de abril de 2026,
[3] UOL. Quantas horas eu preciso dormir? Cada idade tem um tempo ideal; veja o seu. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2023/10/26/quantas-horas-eu-preciso-dormir-veja-o-tempo-ideal-para-cada-idade.htm. Acessado em 20 de abril de 2026.
[4] MISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO/RJ. Suicídio entre profissionais de segurança pública cai no Brasil, mas cenário ainda preocupa. Disponível em: https://www.prt1.mpt.mp.br/informe-se/noticias-do-mpt-rj/2782-suicidio-entre-profissionais-de-seguranca-publica-cai-no-brasil-mas-cenario-ainda-preocupa. Acessado em 19 de abril de 2026.



