
Oséias Francisco da Silva – Supervisor da Guarda Civil Municipal, formado em Filosofia e Mestre em Políticas Públicas, Pós-graduado em Gestão de Segurança Pública.
O tema das drogas e os assuntos decorrentes dele desde que entrei para o campo da segurança pública me chamaram atenção. Quando ingressei na carreira da guarda civil municipal de São Bernardo do Campo, estado de São Paulo, havia na corporação um programa chamado Educando para a vida, uma iniciativa educativa com foco na prevenção ao uso e abuso das drogas, promovido por integrantes da corporação e ministrada nas escolas municipais e estaduais a cidade. Em 2005 fiz o curso de qualificação e depois comecei a participar do programa que me permitiu vivenciar inúmeras situações e acumular conhecimentos sobre o impacto nas famílias e a relação dos adolescentes e crianças com as drogas nos diversos estratos da população da cidade.
Em 2007 o programa foi finalizado pela gestão da época, mas o meu interesse continuou e procurei me aprofundar no assunto sempre buscando atualizações e formações técnicas nos cursos promovidos pela Universidade Federal de Santa Catarina. O que me motiva a desenvolver essa reflexão com esse tema, a propósito, é o mesmo tema de um livro de minha autoria publicado em 2023, é o impacto das drogas nos usuários e dependentes, nas famílias, na sociedade e na segurança pública, e sua importância na economia formal.
Compartilho com vocês uma experiência que me marcou quando estava dialogando com um grupo de alunos do último ano de uma escola municipal da cidade sobre as drogas. Quando me convidaram para essa palestra me informaram que o motivo do convite era uma preocupação da escola com alguns alunos que viviam em situações de vulnerabilidades e que já estavam em contato com as drogas e que iriam no ano seguinte para a escola estadual. Sempre que recebo esses convites naturalmente começo a pensar e elaborar mentalmente um tipo de abordagem do tema conforme o público. E no dia da palestra, os alunos em sala de aula também aguardavam com certa expectativa e muito animados.
Procurei construir um diálogo com eles a partir do uso de metáforas, é um método que sempre costumo usar e é muito eficiente. Fiz uma comparação do indivíduo com a semente e dos efeitos dos venenos e dos fertilizantes, na semente, e no indivíduo, apenas traduzindo os venenos para as drogas e os fertilizantes para os fatores e ações protetivas. E num dado momento, trabalhando os fatores protetivos, que são as ações humanas e ambientais que protegem e diminuem as vulnerabilidades e aumentam a resiliência dos indivíduos, apresentei a eles uma foto de uma arvore cujas raízes cresceram desviando de um muro de pedras que estava em seu caminho.
Perguntei para eles o que era possível refletir sobre essa foto e muitas respostas criativas surgiram. A principal mensagem daquela foto era que a vida é cheia de desafios e no processo de crescimento as pessoas, como aquele arvore, vão se depararem com eles, mas para crescer, forte, saudável e produtiva, a arvore precisa dos benefícios do solo e para encontrá-los às vezes precisa contornar os obstáculos. E aproveitamos a oportunidade da reflexão para destacar que na floresta nem todas as arvores enfrentam os mesmos desafios, umas têm mais sorte e outras precisam de mais esforços. Assim também é na sociedade, uns têm mais facilidades e outros tantos têm mais dificuldades para manter seu crescimento, mas tanto uns quanto outros podem encontrar os fertilizantes necessários para crescerem fortes, saudáveis e produtivos.
E nesse momento do diálogo, um adolescente que acompanhou toda a palestra em silêncio, mas altamente compenetrado e posturado, ele quebrou o silêncio e me perguntou: professor onde encontrar fertilizantes para crescer forte, saudável e produtivo? Essa expressão forte, saudável e produtivo foi utilizada desde o início da palestra e pedi para os alunos repetirem várias vezes. Essa pergunta desse aluno me capturou e por alguns instantes fiquei processando para compreender a motivação dela e se ela era mais do que uma pergunta, mas um pedido de ajuda. Depois da palestra a professora me confidenciou que aquele aluno era um dos que viviam situações de vulnerabilidades. Perguntei o nome dele e o chamei pelo nome, reconstruí a comparação da arvore e seu contexto com o indivíduo em sociedade e enfatizei que os desafios são reais e que nem a arvore nem o indivíduo pediram para viverem nesse contexto, mas o desafio estava posto e que ficar reclamando não iria resolver a situação. A arvore encontrou o seu caminho, foi resiliente e prosperou. De igual forma, com complexidade singular, são os indivíduos, a despeito do contexto em que vivem podem encontrar os fertilizantes necessários ao crescimento e desviarem dos venenos que enfraquecem, adoecem e tornam improdutivos.
Os fertilizantes, fatores protetivos nem sempre estão próximos, como as raízes de algumas arvores precisam contornar muitos obstáculos e oposições, os indivíduos, também. No caso das crianças e adolescentes, a complexidade é maior porque são mais dependentes dos pais e têm uma margem muito pequena de autonomia para tomarem decisões. Como teorizou Hebert Marcuse, filósofo da escola de Frankfurt, diferentemente de uma pedra, de uma arvore, os indivíduos sofrem as influências do meio em que estão imersos, mas têm a capacidade de transformá-los também. A palestra terminou, voltei a minha rotina e aquele diálogo direto com o aluno ficou registrado e vez e outra me inquieta. Nunca mais retornei a aquela escola e não tive mais notícias daquele aluno em especial.
As drogas, sejam elas as lícitas, tabaco, álcool, cafeína e outras, ou as ilícitas, maconha, cocaína, crack, heroína, ecstasy, lança-perfume entre outras tantas, causam prejuízos diversos aos usuários, as suas famílias e a sociedade. Didaticamente gosto de chamá-las de venenos que enfraquecem, adoecem e tornam improdutivos seus usuários, desestabilizam e rompem os vínculos sociais, afetam a dignidade e em muitos casos, rebaixam os indivíduos a um tipo de sobrevivência sub-humano. Cabe destacar que os danos das drogas estão condicionados ao tipo e a intensidade do uso, a estrutura psicossocial e econômica dos usuários e a rede de proteção e atenção psicossocial disponível.
Na próxima reflexão vamos pautar o conceito de drogas e suas variedades, as legislações e decisões judiciais, a política nacional, sua importância no mercado financeiro e seu impacto na segurança pública.



