Ele se espelha em quem está mais perto: O maior desafio do brasil em ter uma polícia comunitária

Oséias Francisco da Silva – Supervisor da Guarda Civil Municipal, formado em Filosofia e Mestre em Políticas Públicas, Pós-graduado em Gestão de Segurança Pública.

Inicialmente ressalto que essa reflexão não intenciona abordar exaustivamente todos os aspectos conceituais da polícia comunitária, mas apenas pinçar um tópico desse vasto tema, a saber, a proximidade e confiabilidade da polícia que são essenciais e se constituem bases sólidas para sustentar toda a construção da política ou da filosofia organizacional. Vou partir do trecho da música Mágico[1] de OZ dos Racionais MC’s que diz: Dizem que quem quer segue o caminho certo /Ele se espelha em quem tá mais perto. Ele quem? A molecada da quebrada, mas vale a mesma lógica para todo o público. É uma letra recheada de críticas a polícia, mas nesse trecho em destaque, o poeta intuitivamente expressa um dos aspectos mais importante da polícia comunitária, a confiança e a proximidade, uma está vinculada a outra, andam juntas.

O tema polícia comunitária de tempo em tempo volta as agendas políticas e institucionais de órgãos executivo, como o Ministério da Justiça e Segurança Pública, e das polícias estaduais e guardas civis municipais. E nas discussões acadêmicas e de movimentos sociais sempre fazendo um contraponto ao modelo tradicional de polícia orientado para a repressão, modelo reativo-repressivo. Grosso modo, quando se fala em polícia comunitária no Brasil os referenciais básicos vêm do modelo de polícia criado por Robert Peel[2] (1788-1850), Primeiro-Ministro do Reino Unido, na polícia metropolitana de Londres em 1829. Alguns dos princípios estabelecidos por Robert Peel que merecem destaques no contexto de nossa reflexão: prevenção ao crime e a desordem; legitimidade e consentimento público para a polícia; participação social; uso adequado, progressivo e racional da força e relação comunitária.

            O modelo japonês[3] de polícia comunitária, estruturados em Koban e Chuzaisho, bases descentralizadas com características próprias e empoderamento do agente da ponta para tomada de decisões, em alguns dos aspectos, foi, no caso do Koban, o que mais ganhou espaço no Brasil. As polícias militares de vários estados da federação tomaram iniciativas em dar uma nova roupagem as corporações incluindo nos currículos formativos a matéria polícia comunitária e direitos humanos, e descentralizado a estrutura por meio da criação de bases comunitárias objetivando melhorar a aproximação com as comunidades.

            Retornando ao tema proposto em destaque o trecho da música dos Racionais, Ele se espelha em quem está mais perto, e partir dessa afirmação que dar expressão a realidade, podemos imaginar quem está mais perto, principalmente da molecada nas quebradas (periferias dos grandes e médios centros urbanos), se a polícia ou os criminosos. Na rotina do trabalho operacional das polícias, no policiamento ostensivo nos territórios vulneráveis, também conhecidos como as periferias, no geral, há hostilidade de ambos os lados, polícias e parte da comunidade, principalmente os criminosos, adolescentes e jovens que cresceram num ambiente de anomia, desordem ambiental, conflitos constantes, ausência do poder público, espaço que foi preenchido pelos delinquentes. Não há espaço vazio e se o poder público não assume a dianteira na organização, alguém vai assumir. Podemos assistir, nesse contexto, o fenômeno da prevalência da lei dos mais fortes, dos mais armados.

            As polícias sobem o morro ou entram nas quebradas para policiamento, no geral para caçar, para atender ocorrências criminais ou de conflitos sociais, não ficam, após o atendimento vão embora, não criando vínculos virtuosos. Os criminosos e os que estão em conflito com as normas legais ficam lá, são de lá, se conhecem mutuamente. Portanto, é natural que eles, os adolescentes e jovens, principalmente, se espelhem em quem está mais perto. O mais perto pode ser desde a sua família, mas nas periferias muitas famílias são desestruturadas, desajustadas, não têm referências positivas, bem pelo contrário, com crimes, drogas, álcool, faltam alimentos, habitação precária, espaço limitados para convivências de muitas pessoas. Um barril de pólvoras aguardando o momento, que é certo, de alguém acender o fósforo.

            Quem está mais perto tem maiores chances de influenciar, não é uma regra determinante, porque o indivíduo não é apenas resultado do meio social em que viver, mas de diversos fatores. Tem muitas pessoas que vivem e viveram em situações totalmente adversas, mas conseguiram de alguma forma, neutralizar os impactos negativos em sua vida. E essas pessoas gostam das polícias, se espelham ou se espelharam nelas, e até se tornaram polícias. Uma parte significativa dos policiais, militares, civis e guardas civis municipais, principalmente da parte baixa da pirâmide hierárquica das instituições, vem das periferias. É sabido que esses quando ingressam nas carreiras policiais, pelo menos uma parte significativa deles, não permanecem nesses territórios por conta de certa ascensão social alcançada, e por questões de segurança própria e da família.

            Um dos maiores desafios das polícias brasileiras, em especial as militares e guardas civis municipais, na tentativa de se tornarem polícias comunitárias, é construírem as condições para ficarem mais perto da comunidade, construírem vínculos virtuosos nas comunidades, se fazerem presentes, presenças quanto ativa, proativa e positiva afugentam os criminosos, que encontram em territórios vulneráveis e desorganizados, ambientes ideais para instalação e proliferação de suas atividades. Pontuo que não é apenas nas periferias, mas também nos bairros organizados e bem estruturados de classe média e classe financeira alta têm criminosos. E será que a frase “quem tem bens é do bem” interfere na lógica do policiamento? Será que diferentemente da lógica do policiamento nas quebradas, nesses bairros onde residem pessoas com alto poder aquisitivo, o policiamento é diferente? O comandante[4] da Rota, tropa de elite da polícia militar de São Paulo, em entrevista disse: “Da mesma forma, se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa do Jardins que está ali, andando”, complementou. “O policial tem que se adaptar àquele meio que ele está naquele momento”. Essa fala do comandante pode dar margens para interpretações diversas, mas a mensagem central dela é: não há um padrão de abordagem fixo, mas reflexível dependendo do público e do local.

            Está perto, tanto a polícia militar quanto a guarda civil municipal, caracteriza o princípio inicial para se torna em polícia comunitária. A proximidade bem construída e a presença virtuosa possibilitam a criação de vínculo de confiança com a comunidade, em especial com os adolescentes e jovens, que podem ter os agentes da lei, como referência, inclusive para suas escolhas futuras, ou como parâmetros para suas tomadas decisões. O desafio é gigantesco porque a hostilidade construída historicamente tensiona a relação e dificulta a aproximação. É algo parecido com o dilema[5] do porco espinho de Schopenhauer (1788-1860), que diz: “Em um dia gelado de inverno, diversos porcos-espinhos se amontoaram muito próximos para evitar que congelassem, graças ao calor mútuo. Eles logo sentiram a dor causada pelos espinhos dos demais, o que fez com que eles se separassem novamente. Mas a necessidade de calor voltou a uni-los e o recuo dos porcos-espinhos se repetiu, de forma que eles ficaram presos entre dois males, até descobrirem a distância adequada na qual poderiam se tolerar melhor, uns aos outros.”

            Essa fábula, aparentemente despretensiosa e ingênua, nos ensina uma grande e profunda lição nos relacionamentos humanos. E no caso em específico do tema em tela, podemos aplicá-la, para que tanto as polícias quanto a comunidade, principalmente em locais mais ou menos deflagrados, ou com declarada hostilidade mútua, reconhecer que há espinhos dos dois lados, mas a convivência exige a proximidade para criação do calor necessário para a sobrevivência. Então, é salutar ou cortar os espinhos, ou encontrar um ponto de proximidade que permita uma boa convivência, sem, contudo, ferirem mutuamente. Mais próximos criaremos uma rede de apoio, de proteção, acolhimento, contra as ações dos criminosos, que são os verdadeiros opressores da comunidade e da sociedade em geral, enquanto as polícias deverão ser protetoras e amigas da comunidade, e braço forte do poder público contra os delinquentes.


[1] LETRAS. Mágico de OZ. Disponível em: https://www.letras.mus.br/racionais-mcs/63399/. Acessado em 24 de maio de 2026.

[2] WIKIPEDIA. Robert Peel. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Peel. Acessado em 23 de maio de 2026.

[3] JICA. Curso Internacional de multiplicador de polícia comunitária – Sistema Koban e Chuzaisho. Disponível em: https://www.jica.go.jp/portuguese/overseas/brazil/activities/brazil03_03_02.html. Acessado em 21 de maio de 2026.

[4] UOL. Abordagem nos Jardins tem de ser diferente da periferia, diz Mello Araújo. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/08/24/abordagem-no-jardins-e-na-periferia-tem-de-ser-diferente-diz-novo-comandante-da-rota.htm?cmpid=copiaecola. Acessado em 24 de maio de 2026.

[5] BBC. O que é dilema do porco-espinho, parábola do filósofo Schopenhauer sobre complexidade das relações humanas. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgkyylzder1o. acessado em 22 de maio de 2026.

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